Simplesmente Bárbara… Uma história de amor e fé

Uberlândia, 12 de agosto de 2004.

Em 1993, teve início a nossa história de amor quando eu e Newton nos conhecemos e, após 1 mês de namoro, nos casamos. Nossa vida era perfeitamente harmoniosa, porém desejávamos um filho. O que não sabíamos é que nossa espera duraria 9 anos. Foram anos de exames diversos e tratamentos, até que em 2002 naturalmente engravidamos.

Bárbara nasceu no dia 26 de fevereiro de 2003 e, com 13 dias de vida, deu entrada na UTI Neonatal do Hospital de Clínicas de Niterói (RJ), com diagnóstico de hemorragia cerebral grau IV. Nos dois meses e meio seguintes, Bárbara foi submetida a uma DVE (derivação ventricular externa), onde como conseqüência provocou uma infecção nas meninges (meningite). Porém, superando todas as expectativas, foi curada. A etapa seguinte foi a colocação de uma DVP (derivação ventricular peritoneal) e durante todas as investigações sobre o seu caso foi descoberto um tumor cerebral central de difícil acesso. Neste período, ao contrário do que a equipe médica imaginava, Bárbara nunca perdeu o reflexo da sucção e apresentava um desenvolvimento normal deixando a todos perplexos. Foi um período de muita oração e de grande confiança e amor. Conversávamos com ela durante todo dia. Falávamos sobre sua grandiosidade, seu espírito guerreiro e sua força. Passávamos para ela a sua importância no seu processo de recuperação.

Quando teve alta, seu neurocirurgião pediu que após 15 dias Bárbara fizesse outra ressonância magnética para definir o melhor momento para a retirada do tumor. Sabíamos dos riscos dessa cirurgia. Porém no dia 13 de maio (dia de nossa Senhora de Fátima), nossa filha estava livre do tumor. Simplesmente desapareceu. Como? Pelas mãos de Deus. Ficou então, apenas com a válvula para a drenagem do líquor, a qual com o passar do tempo já não notávamos mais.

A vida continuou, e Bárbara sem absolutamente nenhuma seqüela crescia e nos proporcionava momentos de felicidade sem fim… Compartilhávamos de todos os momentos com ela. Desde os seus 6 meses fazíamos natação juntos, ela nos acompanhava nas compras, viagens, …

Aos 7 meses, por desejo dela, parou de mamar no peito e não quis mamadeira. Queria se alimentar com “comida de gente grande”. Dormia a noite inteira e acordava cantando. Nunca se queixou de estar com a fralda suja, adorava tomar banho e brincar muito. Adorava estar interagindo com as pessoas. Hoje percebemos que, de alguma forma, ela sabia que sua permanência na terra seria breve, pois vivia intensamente.

Seu aniversário de 1 ano teve como tema: Jesus, Nossa Senhora e os Anjos. Nesta fase começamos a ensiná-la a rezar. Já falava algumas frases do Pai Nosso e finalizava nossas orações diárias dizendo: – Amém, e pedia a nossa benção. Ao acordar só aceitava sair do berço após ter beijado uma imagem de Jesus e de Nossa Senhora de Fátima que permaneciam em sua cabeceira desde o seu nascimento. A decoração de seu quarto era de céu, nuvens, estrelas, sol e anjos. A placa na porta de seu quarto dizia: – Aqui dorme um anjo.

Porém, apesar de tanta vitalidade, uma virose apareceu e o entupimento de sua válvula ocorreu. No dia 04 de julho de 2004 (domingo) foi internada na UTI Pediátrica do Hospital de Clínicas de Uberlândia com diagnóstico clínico de possível morte cerebral.

A madrugada de segunda-feira foi de insônia e um misto de desespero e esperança. O cansaço nos abatia, pois nossa memória insistia em reviver a história anterior de luta por sua vida.

A nossa postura diante de tamanha dor foi de resignação, fé e preparação. Revezávamos na visita ao seu leito onde, cantávamos, orávamos e conversávamos com ela. Tudo era ainda incerto, porém, após dois dias, começamos a transformar o nosso diálogo com Bárbara. Antes era de luta por sua vida, agora em preparativos para sua “passagem”. Conversávamos sobre o passeio lindo que faria e pedíamos a Jesus, Nossa Senhora, aos anjos e amigos espirituais que a aguardassem no momento de sua partida.

Passaram-se mais dois dias, e já com o 2º diagnóstico de morte cerebral, solicitamos aos médicos que entrassem em contato com o MG Transplantes. Prontamente Drª Rita se apresentou e conversamos a respeito do nosso desejo: Bárbara seria uma doadora de órgãos. Drª Rita nos explicou os procedimentos legais, mas já sabíamos da necessidade de um exame complementar para um diagnóstico definitivo.

Neste momento já nos permitiram ficar juntos com ela no seu leito. Foi um dia de grande transbordamento do nosso amor incondicional e sabíamos que com apenas 1 ano e 4 meses ela não tinha órgãos suficientemente grandes para doação, porém sabíamos também que o amor era tamanho e o mais puro sentimento de ajuda ao próximo nos preenchia. Só poderia dar certo!!!

No dia seguinte, 09 de julho de 2004, às 18:00 horas, nossa Bárbara fez a passagem e nossas últimas palavras antes de sua entrada no centro cirúrgico foram:

– Minha filha, chegou o momento mais sublime de sua vida. Agora você fará um passeio e deixará vida para quem ainda precisa dela. O nosso reencontro é certo.

Hoje, o nosso objetivo é levar esperança para as pessoas que sofrem e temem não ter mais tempo para sobreviver. Como? Disseminando a importância de encararmos a doação de órgãos como um ato a favor da vida e não da morte. Vida renovada para quem parte e para quem aguarda.

Definimos a doação de órgãos como uma libertação. Damos a liberdade para um espírito vivo em um corpo morto e damos a libertação das enfermidades, muitas vezes fatais, para pessoas que permanecem no mundo terreno. Hoje, existem duas crianças com suas vidas renovadas. Os rins de Bárbara foram para Bruno, um menino de 13 anos. Suas córneas foram doadas para Rafael, um menino de 4 meses. Ambos se recuperando satisfatoriamente. O ensinamento que fica é que não podemos propagar a dor e sim o amor.

Concluímos esse relato emocionado com parte de uma música que cantávamos para ela momentos antes de sua passagem. Que nos desculpe o autor, porém era como sabíamos cantar.

FICA SEMPRE UM CHEIRO DE PERFUME
NAS MÃOS QUE OFERECEM ROSAS,
NAS MÃOS QUE SABEM SER GENEROSAS.
DAR UM POUCO DO QUE TEM,
A QUEM TEM MENOS AINDA,
ENOBRECE O DOADOR,
FAZ A VIDA SER MAIS LINDA!!

A defesa por essa causa fica como uma homenagem para aquela que nos ensinou a encontrar verdadeiramente nossa fé e a sentir que o amor transcende o tempo e o espaço – nossa filha Bárbara.

Para nossos familiares, amigos, equipe médica, do serviço social e de psicologia, o nosso mais sincero agradecimento por nos darem suporte e por serem um somatório de forças para que possamos suportar este momento.

PARA BÁRBARA, NOSSO AMOR ETERNO.

Elizabeth dos Santos Morais de Carvalho e Newton Martins de Carvalho