Vilma Oshiro – Transplantada de rim e pâncreas

Aos 13 anos de idade fiquei diabética. Era o diabetes tipo I ou insulinodependente. A partir daí,
comecei a aplicar injeções diárias de insulina. Tive que aprender a me auto aplicar pois não tinha
como ir à farmácia todos os dias. E começou uma maratona de consultas médicas, exames de
sangue, busca por informações, associações de apoio aos diabéticos, compra de seringas,
insulina, alimentos diet, leite desnatado etc. Minha mãe sempre preocupada comigo, me
acompanhava e dava todo o apoio assim como me pai e meus familiares.

Sempre tive dificuldade para controlar o diabetes e a doença foi evoluindo com todas as suas
complicações agudas de crônicas. Tive retinopatia diabética e fui perdendo a visão de ambos os
olhos. Eu tentava ler e não enxergava nada. Assistir televisão era horrível pois você só ouve e
não vê as imagens. Me distraia ouvindo música. Felizmente parte da visão foi recuperada e fiquei
com visão subnormal e meu olho esquerdo melhorou, mas entrei em depressão pois fiquei
desnorteada por não saber o que fazer. Tentei encontrar emprego e não consegui. Foi uma fase
muito difícil pois tinha acabado de me formar em Odontologia e tinha sonhos de trabalhar na
minha profissão, mas tive que me reinventar para seguir uma nova carreira.

Tive nefropatia diabética e com a falência dos meus rins precisei fazer hemodiálise. Estava muito
assustada quando fui fazer a primeira sessão. Minha vida parecia que não ia mais voltar ao
normal. Parecia um pesadelo. Não podia beber água, mesmo sentindo muita sede, tinha uma
dieta restritiva de sódio e potássio, além do açúcar devido ao diabetes.

Quando o médico me disse que o único tratamento era o transplante de rim ele sugeriu fazer o
de pâncreas também. Minha primeira pergunta ao médico foi: “Será que eu aguento essa
cirurgia?” Um transplante de órgão já é um procedimento complexo, imaginem, dois
transplantes! Mais um susto na minha vida, medo e angústia por ter que passar por mais uma
etapa complicada, mas nunca desisti de lutar e, após o susto, fui atrás de informações e
conversas com médicos especialistas. Sempre passei por excelentes médicos que me
orientaram, explicaram e me deixaram mais tranquila para seguir em frente.

Em relação ao transplante de rim, havia a possiblidade de ser através de um doador vivo e minha
mãe se prontificou imediatamente em doar seu rim para mim (amor de mãe é imensurável).
Mas ao fazer um exame de cateterismo ela teve complicações sérias e desistimos de ter um
doador vivo e fui para a fila de transplante duplo (rim e pâncreas).

Era angustiante acessar o site da Central de Transplantes e ficar acompanhando a posição na fila
do transplante. A fila oscilava muito e quando parecia que você ia ser chamada, a fila retrocedia,
pois, há diversos critérios na triagem dos doadores e candidatos ao transplante.

Cheguei a ser chamada para o transplante duas ou três vezes, pois quando há um doador
compatível, pelo menos três potenciais candidatos são chamados. Era uma expectativa ficar no
hospital aguardando uma chance e voltar para casa. Mas era um presságio de que logo, logo
seria minha vez.

A espera é angustiante, aflitiva e dramática envolta num sentimento complexo pois envolve a
morte de pessoas, ou seja, muita tristeza, por um lado, e a esperança pela vida, por outro lado.
Após aproximadamente 9 meses na fila do transplante duplo, chegou a minha vez! Fui chamada
e, dessa vez, eu era a primeira da fila devido a compatibilidade dos órgãos. Muita expectativa,
esperança e vontade de viver. Após mais de 12 horas de cirurgia, com duas equipes cirúrgicas, a
de urologia que realizou o transplante do rim e a de gastroenterologia, que realizou o
transplante do pâncreas fui para a UTI do Hospital São Paulo da Unifesp.

Meus pais ficaram rezando por mim e aguardando pelas notícias numa espera muito aflitiva..

Quando finalmente tive alta da UTI e fui para enfermaria, já me sentia uma nova pessoa. Uma
sensação que não tinha há muitos anos, um bem estar, uma sensação de renascimento.
Este transplante ocorreu no dia 16 de março de 2003, há quase 18 anos, quando eu tinha 34
anos.

Hoje, posso me alimentar normalmente, comer doces, salgados e beber água livremente. E o
faço com equilíbrio para manter a saúde e zelar pelos órgãos doados.

À família que doou os órgãos, minha eterna gratidão. Graças a este gesto de humanidade e
solidariedade tenho uma vida normal e, espero que todos os pacientes que estão na fila
consigam o mais breve possível serem agraciados pela generosidade da doação dos órgãos.
Espero também que, com este depoimento, as pessoas se sensibilizem para a importância da
doação de órgãos e avisem suas famílias sobre esse desejo.

São Paulo, 16/01/2021.