Betina Nogueira

Sou Betina Nogueira, tenho 32 anos e, em 2023, enfrentei o maior desafio da minha vida: o
diagnóstico de Leucemia Mieloide Aguda. Até então, eu levava uma vida ativa, cheia de planos e
sonhos. De repente, tudo precisou pausar. Passei a viver entre consultas, tratamentos e internações.
Mas, foi justamente nesse período que vivi uma das maiores demonstrações de amor que alguém
pode receber. Minha irmã era 100% compatível e foi minha doadora de medula óssea. Costumo dizer
que ela não apenas doou células: ela me devolveu a possibilidade de sonhar. Ela me ofereceu um
novo começo, a chance de estar aqui contando esta história.
O transplante trouxe a cura da leucemia, mas também novos desafios. Passei a conviver com a
Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (GVHD), uma condição que pode surgir após o transplante
e que exige acompanhamento continuo e adaptações. Ainda assim, cada obstáculo possuía uma
nova perspectiva: a de quem recebeu uma segunda chance de VIVER!
Nas internações, eu costumava pensar em tudo o que ainda queria fazer quando saísse dali. Eu
queria aprender tênis. Era uma vontade antiga, que sempre admirei, mas para o qual nunca
encontrava tempo. Quando a doença me obrigou a repensar prioridades, prometi que daria espaço
ao que realmente fazia sentido para mim.
A promessa virou realidade: aulas de tênis às 5h da manhã. Para muitas pessoas, aquilo parecia um
sacrifício. Para mim, era um privilégio. Eram horas de amizade, risadas, aprendizado e
comemoração. Era mais que esporte. Era a materialização de um sonho que me ajudou a
permanecer forte durante o tratamento.

O esporte ganhou um significado mais profundo. Além de ajudar na prevenção de efeitos colaterais do corticoide, como osteoporose e diabetes, o esporte passou a ser uma ferramenta de reconstrução
física, emocional e social. Devolveu-me confiança, autonomia, saúde, amizades e propósito.
Um dos momentos mais marcantes dessa jornada foi participar do campeonato de tênis da ABTX,
em Brasília. Mais do que uma competição, aquele encontro representou uma celebração da vida. Ali
encontrei pessoas que compreendiam minha trajetória, que também enfrentaram diagnósticos
difíceis e que aprenderam a valorizar cada conquista.
Quando completei um ano de transplante, decidi comemorar da forma que mais fazia sentido para
mim: promovendo vida. Assim, nasceu a corrida “Medula na Veia, Vida em Movimento”, realizada
em minha cidade natal. O evento possibilitou o cadastro de 26 novos doadores de medula óssea. É
a prova de que um gesto pode atravessar cidades, alcançar famílias desconhecidas e salvar vidas.
Hoje, quando olho para trás, percebo que minha história foi construída por muitas mãos: pela força
dos meus pais, pela generosidade da minha irmã e por uma equipe médica extraordinária. Se hoje
consigo correr, jogar tênis, participar de campeonatos e compartilhar minha história, é porque
muitas pessoas, literalmente, deram o sangue.

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