Andréa Teixeira Soares – Transplantada de fígado

Tenho 62 anos, moro em São Paulo e, neste ano, completei 25 anos de transplante de
fígado.
Quando tinha 22 anos, comecei a ter coceiras intensas por todo o corpo e passei por
cinco dermatologistas, mas nenhum conseguiu fazer um diagnóstico preciso. Um deles
chegou até a receitar-me psicotrópico dizendo que eu tinha distúrbio emocional.
Em 1987, quando tinha 24 anos, engravidei e fiquei amarela, com as enzimas do
fígado alteradas, aumento muito grande da coceira e o obstetra disse que eu estava
com hepatite. Tomei medicação durante toda a gestação, que foi bem difícil, com três
ameaças de aborto e fazendo repouso absoluto, a partir do 6º mês. Quando estava no
8º mês, entrei em trabalho de parto e minha filha nasceu morta.
Meu médico, então, passou a estudar meu caso para tentar entender o porquê do meu
bebê haver morrido e deu-me o diagnóstico de colestase gravídica (a gestação havia
causado sobrecarga no meu fígado). No entanto, não me disse que, certamente, eu
tinha algum problema maior no fígado e nem me encaminhou para um especialista
para investigação. Continuei com coceiras no corpo e comecei a ter um cansaço
excessivo.
Após cinco anos, outro médico pediu-me uma série de exames, que diagnosticaram
aplasia de medula. Iniciei um tratamento, fiz outros exames que identificaram fibrose
no fígado, varizes no esôfago, hipertensão de veia porta e aumento de baço. Fui
encaminhada para a unidade de fígado do Hospital das Clínicas (SP) e lá iniciaram
uma investigação para descobrir qual era a doença e tratá-la, porém, não conseguiram
descobrir a causa. Fui diagnosticada com doença criptogênica e meu fígado foi
perdendo cada vez mais a função.

Engravidei, novamente, em 1996 e em 1998, tendo perdido os dois bebês. Na última
gestação, quase morri; tive duas hemorragias gástricas, fui para a UTI e tive infecção
hospitalar. Meus médicos disseram que, se eu engravidasse novamente, poderia
morrer e, quando me recuperei um pouco, fui submetida a uma laqueadura de
trompas.
Isto tudo só agravou meu quadro, que evoluiu para cirrose hepática e, nesse mesmo
ano, entrei na fila do transplante. Foi um período bem difícil. Vi muitas pessoas que
estavam na fila, no mesmo ambulatório que eu, morrerem sem conseguir o
transplante.
Não conseguia me alimentar direito, quase tudo me fazia mal, tinha crises de cólica
biliar de parar no hospital, muita coceira, vivia com a pele toda machucada, crise de
câimbras, tendo que tomar relaxante muscular para destravar. Precisei parar de
trabalhar e era muito difícil, também, ver todo o sofrimento da minha família. Tinha dias
que eu entrava no banho e chorava pedindo a Deus que me desse forças para
continuar.
Mas, apesar de todas as dificuldades, Ele nunca deixou de me amparar, tendo
colocado em minha vida muitos anjos que me ajudaram a trilhar esse difícil caminho
de aprendizado e crescimento espiritual, a começar pela família especial que tenho,
minha mãe, minhas irmãs, meus amigos, minha família espiritual, os donos da escola
que eu lecionava que me deram todo apoio e meus médicos maravilhoso, Dr. Paulo
Massarolo e Dr. Edson Abdala, que cuidaram e ainda cuidam de mim com tanta
dedicação e amor. Nunca serei capaz de agradecer o suficiente por todo amor e todos
cuidados que recebi.
Em junho de 2000, uma família que perdeu um ente querido, mesmo no seu momento
de grande dor, permitiu que eu ganhasse uma nova chance, tivesse um recomeço e,
finalmente, foi realizado o meu transplante.
Foi um transplante difícil, fiquei um mês internada, pois tive infecção hospitalar nos
dois pulmões e no abdome. No quarto mês, quando fui retirar o dreno tive
derramamento de bile no abdome e tive que ser reoperada.
Posso dizer que foram oito longos e difíceis anos de acompanhamento da aplasia da
medula e da cirrose hepática. Foram muitas perdas: casamento, filhos, a continuidade
da minha profissão e o sonho de ser mãe. Mas, fui abençoada com uma NOVA VIDA e
procuro vivê-la com alegria e Gratidão por todas as outras coisas boas que tudo isto
me trouxe. Uma nova chance, novo casamento, duas sobrinhas lindas que são uma
luz e uma alegria na minha vida, muito aprendizado, crescimento, novos amigos,
novos valores e um outro olhar para a vida com a oportunidade de escrever uma nova
história.
Eu 2001, conheci a TRANSPÁTICA, uma ONG de transplante de fígado, onde tive o
privilégio de ser voluntária, por 14 anos, o que me abriu novos horizontes de
aprendizado e me apresentou a APAT, onde estou há quase 16 anos. Foi uma
oportunidade maravilhosa de transformar tudo que eu vivi em alguma coisa de bom.
Poder trazer a esperança a pessoas que estão onde eu já estive e tentar fazer alguma
coisa para ajudar a melhorar a qualidade de vida delas.

Agradeço imensamente ao Dr. Tercio Genzini, Dr. Marcelo Perosa e ao Sr. Américo por
terem aberto as portas da APAT para mim e me acolhido nesta linda família que é o
LAR APAT, que ajuda tantas pessoas dando a elas a oportunidade de ter acesso ao
transplante.
Eu gostaria de deixar duas mensagens:
A primeira é que nunca desistam da vida, nunca percam a fé e a esperança.
A segunda: seja um doador de órgãos, avise sua família! Permita que outras pessoas
vivam através de você e continuem sua jornada com qualidade de vida.
Minha eterna Gratidão à família da minha doadora e a todos que me acompanharam
nesta Jornada!
Como dizia Gonzaguinha:
“Viver é não ter a vergonha de ser feliz. Eu sei que a vida devia ser bem e melhor e
será, mas isto não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita”.
Andrea Teixeira Soares
Coordenadora do Lar APAT/ São Paulo- SP.

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